Entrevista com o VampiroAnne Rice
Editora: Publicações Europa-América
Colecção Obras de Anne Rice
Tradução: Teresa de Sousa Gomes
P.V.P: 20€90

Após ter lido o Drácula de Bram Stoker e antes da loucura dos vampiros ter chegado, aconselharam-me a ler as obras de Anne Rice. Passados então dois anos resolvi pegar no livro gentilmente emprestado pelo meu irmão. Já tinha o livro na Wishlist do Bookdepository, mas com tantos livros para ler e tantas obras para analisar ia adiando a compra. Foi um livro que demorou algum tempo (uma semana) a ler, mas que aos poucos quanto mais lia, mais entendia certos elementos que transformam a obra em algo muito mais do que “um livro de vampiros”. Anne Rice simplesmente usa as personagens de Louis, Lestat e Claudia como mensageiros de algo muito superior a um conto gótico. Começando aos poucos com o início da entrevista ao vampiro Louis guiada por um rapaz sem nome, recuamos até ao século XVII quando o vampiro Louis, atormentado pelo recente suicídio do seu irmão é transformado pelo vampiro Lestat, um homem entediante e pouco culto. Ambas as personagens são os opostos: Lestat gosta de brincar com as suas vítimas e não questiona a sua condição de vampiro, enquanto Louis tal como Claudia, fica obcecado com a sua identidade e tentativas sucessivas de descobrir o que significa ser um vampiro. Lestat pouco importado com estas questões pouco pragmáticas ocupa-se em viver uma vida despreocupada às custas de Louis. A humanidade em Louis desaparece aos poucos, tal como algumas das suas memórias. Poucas são as vezes em que ele relembra a sua família ou a figura de Babette, o seu primeiro amor, e a primeira pessoa viva que soube que ele era um vampiro. Filho de Deus ou de Satanás esta será a dúvida que Louis nunca conseguirá esclarecer, pelo menos enquanto permanecer na companhia de Lestat. O rompimento só acontece quando Claudia, uma miúda de seis anos, é transformada por Louis e Lestat após uma crise de consciência. Claudia permanecerá para sempre como uma rapariga pequena, uma boneca demoníaca, pronto a explodir de ódio, quando descobre que nunca crescer e amar livremente Louis. Embora Louis seja pai, amigo e amante de Claudia, as implicações pedófilas da personagem conseguem aumentar substancialmente a densidade do livro. Claudia pode não crescer fisicamente, mas evolui psicologicamente tornando-se numa “mulher” fria, manipuladora, ciumenta e desinteressada com tudo. As bonecas com que se divertia deixam de lhe interessar e só os encontros com outros vampiros e adopta as próprias perguntas de Louis em relação ao sentido da vida/morte. Através da personagem de Claudia Anne Rice sobe mais um patamar em direcção à homossexualidade. A menina é apresentada como filha tanto de Louis como de Lestat, quando estes moram na mesma casa como uma família normal. Os anos passam sem que o leitor se aperceba e só pequenos símbolos como peças de roupa ou até no fim a sirene, contribuem para situar o leitor no tempo. Outro tema bastante recorrente na literatura e especialmente (se verificarem na literatura de vampiros, tirando a saga “True Blood”) existe a necessidade constante de viajar. De Nova Orleães para a Europa de Leste, Paris, Egipto, Ásia, embora nem todos os locais possam ser agraciados com descrições ricas, Nova Orleães e Paris são os dois focos principais na narrativa de Louis. Principalmente devido à existência de outros vampiros. Se em Nova Orleães Louis não encontrara quaisquer vampiros, em Paris no “Theatre des Vampires” existe um nicho deles, onde Louis encontrará Armand e perderá a sua filha/ amante. Mas quando a era de Claudia acaba, começa uma fase repentina com o acordar da homossexualidade entre Louis e Armand. Louis que sempre se apresentou um vampiro sério e filosófico, não resiste aos encantos de Armand e acredita que encontrou a pessoa ideal para viver a morte sem questões, apreciando a arte e longe de Lestat e de Claudia. Contudo tudo acaba sem fim (doesn’t make any sense). Quando Louis está prestes a terminar a sua narrativa sabemos os desenvolvimentos de uma forma muito rápida: Armand e ele separam-se de regresso a Nova Orleães e Louis encontra Lestat num estado psicológico instável, incapaz de se adaptar aos novos tempos da modernidade.
Mais do que a história, o ponto forte da narrativa são as personagens e o que cada acorda dentro de nós: desde ódio até ao amor doentio, a perseguições filosóficas da vida, cujas respostas são impossíveis de obter, a passagem do tempo completamente efémera, mas também entediante, as pessoas que de alguma forma evoluem, mas que no fundo todos procuramos o mesmo: tal como Louis todos nós procuramos uma verdade absoluta, na qual nunca vamos ter resposta. Quando o livro acaba ser vampiro é muito mais do que ser um monstro ou filho de Satanás. É um modo de vida, uma constante busca de sentido para a morte.
O pior da leitura foi mesmo alguns pormenores da edição e tradução portuguesa. Erros, palavras mal formatadas, as margens demasiado largas levaram-me a crer que o livro seria uma pseudo-edicação de bolso pelo seu interior. Nada contra os livros de bolso, visto que até prefiro comprá-los pequenos e com margens largas para reduzir o número de páginas, mas de facto quando o livro tem formato de edição de bolso mas com os preços de uma edição normal (ver preço em cima) acho que a editora Europa-América devia de reconsiderar estas edições. Mais vale ler em inglês e poupar mais do que uns simples trocos.
Para quem quiser saber mais sobre Lestat e Armand poderá ler os seguintes livros:
The Vampire Lestat I e II
The Queen of the Damned
The Vampire Armand

3 comments:
Escrevi recentemente uma crítica a este livro, e tenho de concordar no que diz respeito à Europa-América, notando-se uma falta de cuidado nas edições de Anne Rice, algo que não se reflecte te todo no preço...
Aconselhava a leitura de O Vampiro Lestat, que nos dá a sua perspectiva dos acontecimentos, muitas vezes drasticamente diferente da relatada por Louis. Descreve também as origens de Lestat e a sua transformação.
que bela escolha para o meu cineliterário!
impecável.
csd
Bom, primeiramente me perdoe,com as críticas que irei formular. Inicialmente, talvez você esteja sendo muito rotulista, pois atribui adjetivos que caso você se aprofunde nas crônicas de Anne, verá que os personagens não são da maneira que os vê. Logo, Lestat não é nem um pouco "intendiante e pouco culto". Cláudia não é "desinteressada", Inclusive, tal contatação você poderá perceber no próprio filme. Os comentários atribuindo á Louis de pedofilo e homossexual, é deveras caricatural, além de ser inverossímel.
Gostaria que você lesse os outros livros, principalmente o vampiro Lestat, digo logo que além de mudares tua opinião em relação à ele, ainda, te apaixonarás por esse personagem, pois as crônicas de Anne Rice giram em torno de Lestat de Lioncourt.
Ademais, não gostaria que meu comentário soasse como uma afronta, apesar de saber que é abusivo. Se não quizer postar, tudo bem!!
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